Em 2008, me usei a discussão em um trabalho bem simples da faculdade (cheio de conceitos rasos, pra não dizer preguiçosos) para a disciplina Estética da Comunicação. Me lembrei desse texto recentemente por conta da enxurrada de homenagem aos 70 anos do Rei do Futebol. A quem interessar:
Pelé, o apolíneo; Diego, o dionisíaco

Quem quiser negar, que negue, mas as evidências são redundantemente óbvias de que o Esporte é um dos mais importantes fenômenos socioculturais dos dias de hoje, quiçá, da história da humanidade. Desenvolvido como tal desde os tempos helênicos, o Esporte é, entre outras coisas, um campo fértil para o desenvolvimento de conceitos bastante trabalhados pela filosofia, como a emoção, a dor, o duelo, e, porque não, a estética.
No século XX, uma modalidade em especial se destacou por sua capacidade de adaptação à sociedade de massa. Nascido em grupos de jovens universitários da burguesia inglesa na segunda metade do século XIX, o Futebol rapidamente se transformou no esporte mais conhecido, praticado e venerado do mundo. Um processo que envolve incontáveis variáveis que não cabe no momento discutir.O fato é que o Futebol é um espaço que possibilita uma infinidade de experiências estéticas, assim como a arte, a música ou o teatro – formas mais comumente aceitas como passiveis de experiências nesse campo filosófico da transcendência, do belo, do sublime.
A Dualidade de Nietzsche
Um dos conceitos mais conhecidos e trabalhados por Nietzsche foi a dualidade entre o espírito Apolíneo e o espírito Dionisíaco. Em sua obra “O Nascimento da Tragédia”, publicada em 1872, o filósofo estabeleceu a dualidade entre esses dois princípios.
Baseado na mitologia grega, Nietzsche estabeleceu o espírito apolíneo como representante da ordem, da objetividade. Apolo é o deus da claridade do dia, que revelava-se no Sol. Zeus, seu pai, era o céu, de onde nos vem a luz. Sua mãe, Latona, personificava a noite, de onde nasce a aurora. Apolo, soberano da luz, era o deus cujo raio fazia aparecer e desaparecer as flores, queimava ou aquecia a Terra, era considerado como o pai do entusiasmo, da música e da poesia. A serenidade apolínea é o emblema da perfeição espiritual.Já o espírito dionisíaco representa o elemento inebriante que proporciona o prazer. Dionísio era o filho de Zeus com Sêmele, personificação da Terra em toda sua magnificência. Dionísio simboliza as forças obscuras que emergem do inconsciente, pois que se trata de uma divindade que preside a liberação provocada pela embriaguez. O espírito dionisíaco retrata as forças de dissolução da personalidade.
Nietzsche estabelece então a união desses dois elementos. Apolo não é o contrário de Dionísio, mas sim uma unidade, onde um é uma parte distinta do outro. Desse modo, o que Nietzsche institui é a formação do apolíneo e do dionisíaco como princípios de natureza estética e inconscientes. A incessante luta entre eles cria sempre coisas novas. E por meio dessas coisas novas, por meio desse dualismo, se torna possível transcender e ultrapassar a realidade cotidiana.
A Dualidade no Futebol
O conceito de dualidade desenvolvido por Nietzsche pode ser aplicado à grande polêmica do futebol: quem foi melhor, Pelé ou Maradona?
É consensual nos quatro cantos da Terra que os dois mais geniais jogadores de futebol que já existiram foram Pelé e Maradona. No entanto, a unanimidade termina quando a questão é decidir qual dos dois foi melhor. Uma discussão alimentada principalmente pelos meios de comunicação – maiores responsáveis pela criação desses dois ícones.Realmente, Pelé e Maradona foram dois jogadores brilhantes que proporcionaram à humanidade experiências estéticas inesquecíveis. O que dizer do desfile dos dois pelos campos do México nas copas de 1970 e 1986, que emocionam amantes do futebol até os dias de hoje. Imagens belas, históricas, imortais.
Nascido no ano de 1940, na cidade de Três Corações, no interior de Minas Gerais, Edison Arantes do Nascimento, o Pelé, sempre foi um legítimo representante do espírito apolíneo. Endeusado em todo o Planeta desde os 17 anos, quando conquistou sua primeira Copa do Mundo, Pelé é um exemplo de comportamento.Educado, inteligente, simples. Apesar dos seus deslizes (como, por exemplo, os filhos extraconjugais que teve que reconhecer em cartório), Pelé sempre contou com o apoio dos meios de comunicação para a manutenção da sua imagem positiva. Depois de encerrar a carreira de jogador passou a atuar como um verdadeiro “embaixador” do futebol, recebendo homenagens por todo o mundo. Namorou celebridades, foi ministro de Estado. Passeou por áreas como a música, o cinema, as artes. Foi aclamado como o atleta do século pelo Comitê Olímpico Internacional e o maior jogador de futebol de todos os tempos pela Federação Internacional de Futebol.
Já Maradona, sempre foi um legítimo representante do espírito dionisíaco. Nascido em 1960, no subúrbio de Buenos Aires, Diego Armando Maradona sempre causou polêmica por suas opiniões, seu gênio forte e seu envolvimento em brigas e drogas. Aos 17 anos já era considerado uma grande promessa do futebol, mas conta que sofria perseguição por suas opiniões e acabou cortado da seleção campeã do mundo 1978, na Copa realizada na própria Argentina durante a Ditadura Militar. Em 1986, encantou o mundo com suas jogadas geniais e, claro, ficou famoso pelo inesquecível golaço de mão que marcou em cima da Inglaterra na copa daquele ano, que acabou com a Argentina vencendo novamente. Em 1990 foi banido do futebol italiano pelo uso de drogas. Quatro anos mais tarde foi cortado da copa de 1994, também pelo uso de drogas. Depois de abandonar os campos em 1997 continuou sendo notícias por envolvimentos em brigas e pelo vício em cocaína.
Pelé e Maradona. Elementos tão distintos e que ao mesmo tempo se completam. Símbolos claros do eterno conflito criador entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco de Nietzsche.

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